sábado, 19 de junho de 2010

A VISÃO CABALÍSTICA DA SERPENTE DO GÊNESE

Por Rabino Yakov Phynes


Através da história, a serpente permanece como o símbolo dos menos conhecidos entre os elementos bíblicos, frequentemente associado ao mal e às forças da tentação e da queda. Mas, si olharmos a serpente com os olhos de cabalistas e não simplesmente com os olhes de crentes, então os ensinamentos que ela encobre são inúmeros, e a história do Jardim do Éden assume uma coloração bem distinta: da queda, encontramos então uma transformação espiritual e um possível desenvolvimento do homem na liberdade da Criação.

Na tradição dos mestres chassidim, um dos princípios para se obter uma compreensão mais profunda e maior da Torah é utilizá-la como um manual, o qual, pela alquimia da psicologia íntima da alma, pode ser compreendida mais facilmente.

Cada pessoa, lugar, acontecimento, objeto, representam um elemento orgânico da psiché humana e divina. Por este modo de conhecimento, a serpente do Jardim pode ser simbolicamente um representante dos instintos primitivos que se escondem dentro de cada um de nós. De fato, os sábios nos dizem “a serpente era originariamente destinada a ser um grande servidor do homem” (Sanedrin 59b).


Nossos sábios, de abençoada memória, nos dão aqui uma visão surpreendente, que desenvolve para além nossa compreensão da serpente. Eles nos dizem que a serpente tinha, na origem, pernas e que ela foi amaldiçoada (Zohar I 171ª). Simbolicamente, isto significa que a condição primeira de cada um é de poder mover-se e de subir, de se elevar para alcançar os cimos na iluminação e na compreensão do divino. Isto significa também que nós somos intrinsecamente capazes de preencher nossa vida, de fazer viver o reino de D-eus em nós e à nossa volta. Neste nível, a benção espiritual última é possível. Mas desde que a serpente foi amaldiçoada por D-eus, a fim de “arrastar-se sobre o seu ventre e de comer a poeira da terra” (Gênese 3,14), a condição de origem muda drasticamente e estamos então presos às formas inferiores das paixões.


Para compreendermos esta profunda mudança, devemos novamente nos referir aos mestres da tradição cabalística. Com efeito, cabala (Zohar II 23,b e Midrash Rabba baMidbar 14,12) nos ensina que existem quatro níveis de compreensão e que para constituir um ser humano integral, devemos ter quatro níveis, ou quatro elementos da natureza: o elemento material (terra), a natureza emocional (água), a habilidade intelectual (ar) e a dimensão espiritual (fogo). Ao retirar as pernas da serpente e a forçando a se arrastar sobre o solo, o elemento da pulsão física é confinado, segundo os abençoados mestres, à dimensão terrestre e material. O resultado desta maldição é que nossa energia original, que é a de realizar o potencial de transformação espiritual, se encontra a presente em um estado de confinamento terrestre, no seio das energias mais inferiores do corpo, associadas à sexualidade, às paixões físicas e aos desejos terrestres.


É esta a razão pela quais inúmeras tradições no mundo compreenderam que este estágio inferior é a fonte de nossos obstáculos para atingirmos níveis de espiritualidade superiores. Como resultado, a serpente foi condenada como maléfica.


2 comentários:

José Ailton da Conceição disse...

QUE O ETERNO CONTINUE TE USANDO SHALOM.

Cristovão Sousa disse...

Lindissimo texto. Parabens

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